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  • João Barros

Fernando tinha um irmão




Lívia Serri Francoio


Os passos trágicos de uma dança psicanalítica no podcast "Collor versus Collor"


Parte I: O jornalismo é um humanismo?


Fenômeno de consumo midiático no Brasil, terceiro país com o maior número de ouvintes do formato – segundo dados da Statisa e IBOPE¹ –, uma das benesses trazidas pelos podcasts foi a de dar um respiro nas discussões sobre a morte da imprensa.


Mas recentemente me peguei com fios de pensamento sobre se não há um excessivo processo de humanização dos personagens da história nas diferentes formas de jornalismo narrativo que ganham espaço nos modelos de podcasting. 


Mais precisamente, essa foi uma das perguntas que vieram-me à cabeça ao terminar o último episódio 'Collor versus Collor', série de 8 episódios produzida pela Rádio Novelo para a Globoplay, com condução da jornalista Évelin Argenta. A resposta, quase imediata, foi de que não. 


Primeiro porque não me parece haver humanismo que "venha em excesso" e a empatia própria do humanismo nos permite enxergar entretons que se perdem na fúria, mas também no objetivismo por demais distanciado do jornalismo industrial pós-moderno. 


Segundo porque humanizar não significa dourar a pílula, coisa que 'Collor versus Collor e – até onde alcança a vista – a Rádio Novelo não o faz. 


E terceiro porque os efeitos secundários de interesse por uma espécie de “jornada do herói”, identificação e até de afeto que pode ocorrer nas contações de histórias dos podcasts – fatores que, no fim das contas, foram os motivadores de minha reflexão ao fim do episódio –, afinal de contas, não são exclusivos dos podcasts: ou não ocorre coisa semelhante em grandes obras do new journalism como 'A sangue frio', de Truman Capote ou 'Honra teu pai', de Gay Talese?


Mas entendo minha inquietação e não vou atribuí-la às tardes quentes de dezembro. Há, de fato, uma área cinza que habita o terreno do uso de técnicas de ficção para a produção jornalística –  uma área cinza e bela cuja complexidade (derrocada para o jornalismo enquanto entretenimento é um dos riscos possíveis) não precisa ser ignorada para que se reconheçam os méritos de aproximação das nuances da história trazidas pelo jornalismo literário e seus variantes. 


É uma aproximação que demanda mais do que um lead. Uma aproximação que demanda humanismo.


Parte II: Espetáculo shakespeariano. Passos camusianos. Tragédia grega


"Cada um de nós é do tamanho da onda que nos carrega. E de repente uma onda enorme me leva e me coloca em uma ilha fantástica, presidindo um país fantástico como o Brasil. Essa onda foi a mesma que depois me tragou de volta e me jogou contra os rochedos", Fernando Collor, em entrevista para Geneton Moraes Neto²  

Faz, de fato, calor em dezembro. Um calor digno dos impulsos de revolta, cólera e dos atos absurdos, como no episódio do assassinato de 'O estrangeiro', de Camus. Um calor onírico e libertino, como em 'Sonhos de uma noite de verão', de Shakespeare. 


Observando a leitura da história da família Collor pelas lentes do podcast da Rádio Novelo, não é difícil imaginá-los como personagens do bardo ou do existencialista franco-argelino, ainda que eles estejam separados por quase 400 anos de história da literatura. 


A segunda associação está posta: ao longo dos episódios, Argenta faz uma série de correlações entre peças de Shakespeare ('A tempestade', 'Hamlet', a própria 'Sonhos de uma noite de verão') e fatos das vidas do clã alagoano. 


Correlações essas que fazem sentido quando paramos para pensar no enredo das peças e nas paixões de uma família que parecia inclinada – pela história e pelo espírito – a arroubos dramáticos, trágicos, burlescos. Fernando Collor, ele mesmo, admitiu essas predileções a Geneton de Moraes Neto, em entrevista concedida para a série Dossiê Brasília e exibida no Fantástico em agosto de 2005. 


"Há características de uma tragédia grega nisso tudo", ampliando o Egeu de possibilidades cênicas da família Collor e de seu impeachment para as arenas de Ésquilo e Sófocles.  


Mas voltando a Shakespeare, os amores cômicos de uma noite de verão desembocam nas aventuras de luxúria e nos romances juvenis de Fernando Collor. A corrupção, traição a partir do núcleo familiar e disputas de poder entre o ex-Presidente e seu irmão, Pedro Collor, dialogam com o enredo de usurpação e vingança (também entre irmãos), de 'A tempestade'. 


Hamlet, por fim, traz a carga da loucura para o jogo, já que a acusação de desequilíbrio mental foi um dos principais instrumentos utilizados por Fernando Collor (e sua mãe, Leda Collor de Mello) para descredibilizar a entrevista de Pedro, o homem que "falou tudo" para a Veja acerca do esquema de corrupção e achaque de empresários supostamente coordenados pelo testa de ferro de Collor, PC Farias e que deram início a processos de investigação que, no fim, culminariam no impeachment do primeiro Presidente da República eleito pelo voto popular no Brasil pós-ditadura.


Sob essas luzes ou sob esse sol, ao mesmo tempo, trágico e farsesco, também não parece difícil relacionar "O estrangeiro" de Camus com as histórias contadas em 'Collor versus Collor'. Que é a tentativa de Arnon de Mello – pai de Pedro e Fernando Collor – de assassinar, em plena câmara alagoana, Silvestre Péricles com três tiros – que culminaram com a morte não de Péricles, mas de outro senador e colega de câmara prestes a encerrar seu mandato, José Kairala –; se não um passo de uma dança absurda digna do absurdismo literário de Camus? Mais evidente, só se Arnon de Mello acusasse o sol de Alagoas como motivador dos disparos.     


Parte III: Fios de novelo


Há, me parece, outras associações possíveis com o poço simbólico da família Collor, mas fiquemos com duas também feitas no podcast: uma sacra (a Bíblia) e outra profana (Succession). 


Talvez pareça demasiado autoevidente a menção do podcast a Caim e Abel que serviu como pano de fundo e título para o primeiro episódio de 'Collor versus Collor'. 


Talvez de fato o seja, mas advogam a favor da Rádio Novelo ao menos dois pontos: por mais clichê que eventualmente possa ser a escolha, ela é também certeira, e fugir de uma metáfora gasta apenas para fugir de uma metáfora gasta, em certos contextos, pode sair pior que o soneto. De modo que cai bem o recurso enquanto um elo que estimula o acompanhamento do descortinar de toda história.  


O segundo ponto é o de que estamos falando de fatos ocorridos há mais de 30 anos e, para muitos ouvintes do podcast, a "traição" de Pedro e o impeachment de seu irmão não passam de borrões de uma memória infantil ou de episódios da história brasileira sobre os quais leram em livros didáticos. Reportagens e análises de pautas frias cumprem assim um papel de recontextualização interessante e válido, inclusive, para pessoas que vivenciaram a era Collor. 


Pode-se, nesse sentido, entender o jornalismo da Rádio Novelo enquanto um instrumento para "sistematização de experiências" – tese do jornalista, pesquisador e professor da USP, Dennis de Oliveira, a partir de conceito do sociólogo peruano Oscar Jara. Diz Jara que, por meio da sistematização de experiências, as pessoas podem recuperar de maneira ordenada o "que já sabem sobre sua experiência", descobrir "o que ainda não sabem sobre ela", e revelar "o que ainda não sabiam que já sabiam”³.


E sobre Succession – aclamada e premiada série da HBO – confesso que me achei, por alguns segundos, original ao ver as conexões entre a família Roy e os Collor de Mello: ambas lideradas por um patriarca conservador, colérico, emocionalmente avassalador na relação com os filhos e que ascendeu na indústria da comunicação como um self-made man; ambas com disputas entre irmãos por esse legado megalomaníaco; ambas carregadas de fios trágicos e intrincados dignos de décadas de psicanálise.


Mas logo a lupa da Novelo revelou também essa associação e, ao ouvi-la através da voz tranquila e condução algo informal de Évelin Argenta, senti-me, concomitantemente, pedante e prosaico.

Lívia Serri Francoio


Parte IV: A santíssima trindade 


"Collor tinha o senso do espetáculo da política. Sabia que, como num drama, era necessário às vezes sair do palco para não se desgastar. Depois de eleito governador, em novembro de 1986, desapareceu por quase dois meses.[...] Do exterior, promoveu a organização de sua volta a Maceió para que parecesse uma apoteose. [...] A multidão tomou a pista, houve empurra-empurra, gritos. Collor foi alçado à caçamba de um caminhão transformado em palanque. Esgoelou: “Somos todos aqui filhos da esperança”, e a multidão respondeu com berros e aplausos. Em nenhum instante perdeu o controle do transe. Sabia o que queria da manifestação", Mario Sergio Conti, Notícias do Planalto 

Falamos das associações, pois que se fale também dos pontos de partida. Há três bases estruturantes que perpassam toda a série de 8 episódios do podcast 'Collor versus Collor':


  • Os áudios inéditos da jornalista Dora Kramer (também consultora do podcast) com Pedro Collor de Mello, em entrevistas que serviram de insumo para o livro 'Passando a limpo: a trajetória de um farsante';

  • O livro 'Notícias do Planalto', de Mario Sergio Conti;

  • Um amplo ciclo de entrevistas com amigos, críticos, jornalistas e personagens importantes da Era Collor. 


Sobre a última base, pesa contra a ausência de entrevistas com familiares e com o próprio ex-presidente. 


Tentativas foram feitas nesse sentido – incluindo um interessante jogo de gato e rato frustrado com Thereza Collor, ex-esposa de Pedro Collor. Elas por elas, Gay Talese escreveu o melhor perfil de Frank Sinatra, sem com ele conseguir trocar mais que olhares e saudações.


Parte V: Freud dos espíritos


As camadas de análise psicanalítica de "Collor versus Collor" irrompem de modo sagaz, algo como se o podcast tentasse, quase que literalmente, colocar no divã uma relação tão complexa e ambígua como a de Pedro e Fernando Collor, mas também o próprio espírito de um tempo que elegeu, após mais de vinte anos sem eleições livres, uma espécie de aventureiro travestido de caçador de marajás.


E são muitas as camadas; das mais ululantes, como a relação de traços edipianos do ex-Presidente e de sua mãe, Leda; as mais sutis, como as análises de discurso, como que em uma versão acessível do processo lacaniano. 


Discurso esse também composto por pantomimas e silêncios e muito bem documentados pelo podcast – como em um dos episódios no qual Argenta relata a desistência, o roer de unhas e a tensão de Collor ao tentar gravar um vídeo com uma espécie de autodefesa para o povo durante as investigações do impeachment. O silêncio “toma todo o seu valor de silêncio, não é simplesmente negativo, mas vale como além da palavra”⁴, disse certa feita Lacan e 'Collor versus Collor' se mostrou atento a esse potencial.   


Chama a atenção ainda – e essa é outra das facetas interessantes do jornalismo de aproximação da Rádio Novelo: a composição por detalhes, muitos deles desconhecidos do grande público – a revelação do espiritualismo eclético de Fernando Collor, haja vista que fora alçado ao poder por uma maioria conservadora. 


Do umbanda as terapias new age de regressão de vidas passadas que se popularizaram nos anos noventa por intermédio do psiquiatra americano Brian Weiss, Collor constrói os passos de sua dança, de sua mímica, em meio a espíritos do seu tempo e de outrora.     

 

Parte VI: Por que isso aconteceu e por que não aconteceu tal coisa?


"Por que, Pedro, por quê?" A pergunta que Fernando Collor fazia para si mesmo em solilóquio após o impeachment é, ao mesmo tempo, fundamental e irrelevante para "Collor versus Collor". 


Fundamental pois um dos alicerces que sustentam o novelo narrativo do podcast. Irrelevante porque o que temos a nosso dispor são teses ou a verdade oficial de que Pedro Collor estava genuinamente indignado com os indícios de corrupção do governo do irmão.


Há verdades inacessíveis para a dança psicanalítica de "Collor versus Collor" e, possivelmente, para o próprio jornalismo. Isso não reduz a riqueza e eficácia do podcast, nem a importância do jornalismo, que deve insistir em perguntar – ainda segundo o professor Dennis de Oliveira, no modelo jornalístico de sistematização das experiências, as duas principais perguntas que devemos fazer são por que isso aconteceu e por que não aconteceu tal coisa?⁵


Perscrutar esfinges talvez seja, afinal, o trabalho do jornalista. E talvez isso nos ajude a entender e a enfrentar os fantasmas e caçadores de nosso tempo.


3. JARA, Oscar. Para sistematizar experiências 1. ed. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2006.

4. LACAN, Jacques: Escritos. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998

5. OLIVEIRA, Dennis De. Jornalismo e emancipação: uma prática jornalística baseada em Paulo Freire 1. ed. Paraná: Appris Editora, 2017



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