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O fox-trot e o infinito

  • Foto do escritor: João Barros
    João Barros
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura


john coltrane

Acervo pessoal


Fragmentos sobre Chinatown, Manhattan, restaurantes halal, templos budistas e sinagogas de Nova York



Há sempre um incêndio por aqui. Sirenes de bombeiro. Reformas em calçadas. Estruturas de obras em andamento. Carros de polícia aflitos. Fumaça dançando próxima a hidrantes como gêiseres do verbo submerso. Mas há também um sentido de unidade, que se preserva no olhar dos bichos, no voo síncrono dos pombos, no desejo longínquo dos cães, até mesmo dos poodles, que viviam em São Paulo nos anos 90 e pelo visto vieram todos parar em Nova York. Alguns ficaram gigantes, infinitos. Como os dinossauros, que também vi, em seus ossos, gigantes, infinitos e que devem bem servir de linha de costura para ordenar o fox-trot heraclítico desta ilha do desejo cujo quaternário se expressa em pés apressados de transeuntes, alguns deles imigrantes latinos, que caminham para a missa na Capela de São Paulo. Ela é rezada em espanhol esta tarde. Palomas. Dinosaurios. Jesucristo. Perros. Penso nos meus, com seus olhos infinitos.



Acordo. Café gelado no Dunkin' Donuts. Sigo para o metrô e já não sei bem se é ontem ou amanhã. Ratinhos perto das latas de lixo cinza-já-vi-muito-nessa-vida correm como se fossem tirar as mães da forca a caça de migalhas e em fuga do ódio de citadinos espalhados em blazers tweed, toucas coloridas, cachecóis bem nascidos, atravessando o frio esnobe de Manhattan meio aéreos e preocupados com suas miudezas. Há ratos também nos trilhos do trem. Bailarinos mais rechonchudos que seus irmãos das calçadas brownstone. Anti-kamikazes que se equilibram nas ferragens da pulsão de vida e da pulsão de morte a caça de miudezas. 


God bless you, diz o homem que lê Brave New World e fica me olhando com curiosidade por alguns segundos no vagão. Deve ter sido um espirro e tanto. Ele lê com o dedo correndo por sobre as palavras como a máquina de escrever de um cocainômano. Como os dedos de um beat. Simpatizo com o homem curioso e sua alma de presbítero feito a alma de todos os beats.


O trem chega à Chinatown, que é mesmo digno do fascínio. Suas vielas me fazem pensar não em Polanski, mas em thrillers asiáticos com seus homens de masculinidade tão pungente e tão delicada fumando um cigarro atrás do outro, magros toda vida, gordos toda vida, olhando para o nada à espera do nirvana ou do desespero. Estão próximos de um pequeno templo budista. Me permitem entrar. Mas não filmar. Eu não sabia. Ao lado, no museu judaico, as janelas de luz da sinagoga carregam todos os mistérios do mundo. Sinto-me ainda mais estrangeiro na dádiva do azul e quando vi já era noite o dia. 


Se bem me lembro, foi nela que jantei em um restaurante halal em que um jovem de solidéu conversava com seu filho por videochamada. Ele sorria. Com graça infinita.

 
 

©2023 por Revista Lenta

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