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  • João Barros

Uma introdução ao jornalismo literário em 4 livros




Joan Didion (1970): Julian Wasser / Netflix


"Nós contamos histórias para sobreviver", Joan Didion, O álbum branco


O uso de técnicas literárias para narrar fatos não era uma novidade quando Tom Wolfe publicou seu livro-manifesto de 1973, The New Journalism (publicado no Brasil em 2005 pela Companhia das Letras no volume Radical chique e o novo jornalismo) em que analisa exemplos de como a subjetividade entrara como um sopro de ar fresco na pauta da imprensa americana a partir, sobretudo, dos anos 1960, por meio de jornalistas/escritores como Truman Capote, Joan Didion, Gay Talese, Norman Mailer, Janet Malcolm, o próprio Wolfe e tantos outros.


Possivelmente, o grande mérito do novo jornalismo enquanto movimento foi declarar suas intenções: uma criação jornalística poderia se aproximar mais do factual (ou de uma leitura do factual) se o jornalista fosse capaz de transmitir sua perspectiva, buscando absorver, como um voyeur – para usar uma expressão de Talese acerca do ofício do jornalista – as nuances da realidade.


Do novo jornalismo, passamos propriamente para a definição de jornalismo literário no Brasil, um gênero que, curiosamente, tem crescido como uma espécie de contracorrente na produção midiática contemporânea do país, por meio de publicações diversas, algumas já tradicionais, e de formatos em outras mídias, oferecendo diferentes expressões jornalísticas que fogem do padrão tradicional noticioso das pirâmides invertidas e das hard news.


Para quem deseja conhecer mais sobre essa corrente, aqui jaz uma seleção de 4 obras que compõem um pequeno quadro particular do jornalismo literário. O critério adotado, para além do gosto pessoal, foi uma passagem por cânones do New Journalism – tentando, de algum modo, evitar escolhas mais óbvias, ainda que essenciais, como o monumental A Sangue Frio, de Capote – autor citado em outra obra.


Nem sempre foi possível fugir do óbvio e há, claro, algumas dezenas de autores que poderiam substituir os livros citados nessa seleção: de Lillian Ross ao próprio Tom Wolfe, passando pelo grande repórter Joel Silveira – a quem será rendida, talvez, uma análise mais detalhada no futuro.


Não se pode ter tudo, afinal. E é preciso fazer escolhas nesta sexta-feira que já anoitece.


Rastejando até Belém: Joan Didion (1968)


Ninguém foi capaz de escrever jornalismo com o estilo, perspicácia e profundidade de observação de Joan Didion. Em seu texto, toda palavra é necessária e não há excessos. O não-dito também está presente para compor quadros de verdade e intuição, como quando cruzamos estradas e vemos o todo e seu invisível. Em Rastejando até Belém, um exemplo claro e elegante da maior de sua geração.


Fama e anonimato: Gay Talese (1970)


De seu modo mais contido e educado que o espalhafatoso Tom Wolfe, Gay Talese é outro dos porta-vozes do New Journalism enquanto escola de estilo. Fama e Anonimato é uma coleção de célebres reportagens – incluindo, possivelmente, o segundo maior marco do movimento – Frank Sinatra está resfriado. Mas há textos que impressionam mais, como seu tour de force pelas ruas de Nova York em que descreve profissões da cidade ou o número de vezes que um nova-iorquino pisca por minuto.


Música para camaleões: Truman Capote (1980)


Último livro publicado em vida por Capote dentro de seus amplos períodos de bloqueio criativo e recolhimentos posteriores a publicação de A sangue frio; Música para camaleões mostra todo o apuro técnico, formação literária clássica e talento único para absorver histórias, vidas, e nelas se misturar e se perder, do prodígio de Nova Orleans. Não houve escritor como Capote.


O segredo de Joe Gould: Joseph Mitchell (1965)


Se não houve escritor como Capote, também não houve livro O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, um dos maiores expoentes da escola de jornalismo da The New Yorker. Talvez Mitchell soubesse disso e essa tenha sido a razão de seu conhecido retiro salingeriano das letras.


Ou talvez existam segredos que não devam ser revelados, ainda que a custo da perda de uma obra sublime.


O que vale mais, o mistério ou uma verdade?



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