Antes, traíamos
- João Barros

- há 4 horas
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A captura de Cristo, Caravaggio, 1602
Ou a poligamia como fratura exposta
"Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com o que o tédio dê frutos",
Paul Valéry
Em meio a todas as suas indignidades, há movimentos importantes que se preservam no polvoroso passo da traição. Dois, ao menos. O primeiro é alguma coragem. Vil, mais ainda assim, coragem. Trair talvez seja o maior dos ímpetos subjetivos de violência e, quem trai, assume riscos: de pôr tudo a perder, do julgamento e do ostracismo em círculos de afetos, do abandono por uma paixão, da angústia, da vingança e da contra-violência quase que socialmente aceita. Ou não é a regra se pensar que o traidor, esse pária, merece no mínimo ser também traído? O segundo passo é o direito à revolta, a dor, ao luto, que se dá ao outro. O traído, que se descobre traído, merece ter a escolha de tudo dinamitar, de julgar, sentir ódio e de planejar vinditas, de fazer com que os seus desejem mau agouro contra aquele que lhe causou perfídia. Mesmo quando a traição é sagaz o suficiente para permanecer por todo o sempre às escuras, a própria necessidade do esforço da cautela, o temor de se ser descoberto, de ferir alguém que talvez se ame, mantém na traição um patamar mínimo de coragem abjeta: para trair, é preciso escolher, assumir, pois mesmo quando a traição é perdoada, permanece sob a redenção daquele afeto, a marca eterna de uma ruptura.
Há, pois, um movimento para dentro e outro para fora que se mantém íntegros na traição e que dão ao ato mais indigno arestas de dignidade, ou melhor, de humanidade: coragem; direito à dor.
E a poligamia, na esfera das convenções relacionais pós-modernas, que é?
Há algo de curioso no reino da poligamia. Em alguma medida, ela é justamente a escolha pela não-medida. Pela não-imposição, tanto quanto possível, de limites ao desejo. Nesse sentido, em instância maior, a poligamia é essencialmente anti-relacional: privilegia-se um movimento individual – e jovial, diga-se – para os afetos, na contramão das tensões próprias de uma relação, de suas sublimações, angústias, conflitos e belezas. Não é que não haja acordos. Mas são acordos que assumem o significante da fragilidade, tornando de fato líquida, exposta, a fragilidade posta de qualquer relação humana. A poligamia é uma fratura que se quer dizer aberta, fraturada, exposta.
Há coragem na poligamia? Há, é evidente, mas possivelmente não em essência do ponto de vista relacional, já que a poligamia, nas relações, traz consigo, justamente, o desejo pela não-necessidade de coragem: para o conflito, para a angústia, para os temores diante da fragilidade. Deseja-se paz, leveza, alegria e deseja-se o não-abrir mão. Na poligamia deseja-se tudo e, em grande escala, individualmente. Meu desejo é meu. Então a coragem, na poligamia, é também particular. É uma coragem egoísta que, dentro de uma relação, resta como resíduo, como margem para acordos sutis.
E o egoísmo do amor poligâmico torna a dor do outro também egoísta. Não se pode sofrer por aquilo que é permitido. Se se nasce o ciúme – dentro de um contexto em que a confiança opera sobre bases elásticas –, ele se reduz a seu aspecto patológico. Na poligamia, transfere-se para o outro a responsabilidade pela cautela – ao expor, por exemplo, suas fragilidades emocionais –, e substitui-se o ideal da unidade pelo ideal da liberdade. E, se a traição, mesmo quando perdoada, é indesculpável, na poligamia, a desculpa é um rompante, um excesso.
Epílogo
A monogamia poderia ser mais sofisticada e deveria saber que a liberdade é ontologicamente posta. Sem banalizar a traição, que segue vil, e assumindo as tensões próprias do círculo relacional, talvez o verbo seja a via de sustentação para algo mais maduro que um festim surrealista de desejos que, por não serem sublimados, deixam de ser desejos; e para acordos não-idealizados em que a confiança caminha em terrenos mais claros, ainda que permanentemente acidentados: assume-se que prefere-se não escorregar, mas se se tropeça, cai-se com coragem e dá-se ao outro o direito da revolta.

