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  • João Barros

O mal-estar no digital é o mal-estar do real?


Wikimedia, 1959


Distanciamento, compreensão e simulação em redes e terrenos estranhos


A questão do distanciamento me é intrigante: desde os primórdios da reprodutibilidade técnica passamos a absorver (em ritmo cada vez mais ágil) discursos advindos de contextos tão e dos mais distintos (algo que assumiu um caráter de instantaneidade, simultaneidade no tempo presente). Em tese nos aproximamos, uns dos outros, em redes de sentido globais. Todavia, em uma análise hermenêutica rudimentar, temos, hoje, indivíduos com camadas tão múltiplas de referências e, por consequência, novos ruídos, meias-interpretações, nuances que se perdem em um mundo que nos aproxima e nos distancia. 


É, pois, de fato, a questão da compreensão – ou ao menos o provável mito da compreensão plena – o objetivo principal de um diálogo? Algum dia o foi? Que são essas redes para além de teias de tentativas? De um telefone sem fio com códigos razoavelmente bem estruturados, mas que, possivelmente, só transmitem aparência? 


Talvez, mais e mais, o que temos são átimos de afinidade – aqueles segundos em que imaginamos ver um pedaço do mesmo azul. Em que nos imaginamos salvos da solidão e da esquizofrenia. É suficiente, a intencionalidade da compreensão? O que afinal se divide?



As redes sociais e as relações fragmentadas do digital, muito por todas essas questões que seguem, por enquanto, sem respostas ou com meias respostas em meus diletantismos pessoais, seguem como fontes de estranhamento. Mas, que há, afinal, de tão ridículo nas redes sociais, nos aplicativos de relacionamento e nas caixas de comentários dos veículos de comunicação? 


Enquanto o desconforto parece intrínseco ao fato de avaliarmos publicamente motoristas de transporte privado urbano e entregadores de pizza que mal conseguem pagar o custo de manutenção de seus veículos enquanto somos motivados, em muitas das vezes, por questões subjetivas como a veracidade de um boa noite; essa tessitura não surge de modo tão evidente naquilo que não é, a priori, de ordem econômica.


Tentando dividir essa tessitura e buscar suas sementes, como quem parte um bolo à caça de uvas passas ou tâmaras, faço aqui um esmiuçar, tanto quanto possível, de meu horror.   


Do desconforto


O desconforto primeiro é estético e algo moral. A própria ideia de interatividade virtual – e as teses em torno de conceitos e subconceitos como novas ágoras, cidadania digital, disrupção, repetidos ad nauseam – combinada com a feiura das mídias digitais e dos infográficos que as representam em bancos de imagem; com nossas fotos de perfil que parecem alternar entre mundos de desespero afetivo e de falsa indiferença costumam me incomodar. Mas, de novo, qual a raiz desse desconforto?


O que posso oferecer agora são ideias iniciais relacionadas com os conceitos de autenticidade, maximização e repetição. 


Sobre a autenticidade – um conceito, diga-se, um tanto complexo, problemático e questionável – a reflexão é pretensiosamente objetiva: os canais de interação digital (tomemos como exemplo principal as redes sociais) carecem de autenticidade. 


Ainda que se argumente que a inautenticidade está presente em todo o corpo das relações humanas – alguém poderia concordar que, presos em nossas redes de códigos de conduta e comunicação, simulamos, em alguma escala, até mesmo nossa verdade e o que costumamos chamar de autêntico é a expressão de algo mais ou menos espontâneo, o que não significa dizer que essa expressão espontânea não tenha sido deturpada; na melhor das hipóteses, o foi pelas próprias limitações da linguagem – as redes sociais não só maximizam a sensação do inautêntico, como tendem a se repetir de algum modo em seus elementos visuais, funcionalidades, formas de interação; criando campos de relacionamento que em muito se parecem (inclusive em seus supostos diferenciais). Seu grande trunfo e desgraça, pois, é o poder de maximização.


E, supondo que exista algo de essencial e verdadeiro em nossas existências mundanas capaz de ser transmitido ao distanciamento do outro, esse essencial e verdadeiro raramente é visto – quando muito sob a forma de um lapso, de um instante de fragilidade de nossas defesas que surge, por exemplo, quando encaramos alguém por um tempo longo demais, quando esquecemos que somos observados e somos pegos de surpresa em uma espécie de estado meditativo, quando permitimos a entrada parcial do outro, imersos naquilo que chamamos de intimidade – e, no digital, ele ganha mais um véu de interferência.  


A simulação da originalidade


Paradoxalmente, a busca pela originalidade – ou uma certa ânsia pela originalidade – também tende a jogar contra a autenticidade e essa sensação de verdade simulada também é maximizada no digital: o fluxo de perfis com olhares de soslaio; a reprodução de estereótipos que já demonstravam sinais de cansaço no pós-guerra; o pastiche escancarado e, ao mesmo tempo, velado, que se perde pela falta de referências; a necessidade constante de afirmação de símbolos políticos e culturais, de se colocar contra a corrente filistina; tudo isso faz-me pensar em um caleidoscópio de imagens pálidas vendidas em um brechó de bairro, em quadros decorativos de Pulp Fiction, em camisetas em tie dye e em todas as nossas vaidades não tão dignas de nota distribuídas em uma calçada repleta de outras bugigangas que clamam por atenção.  


O desconforto maximizado


Sim, a simulação não é um atributo exclusivo das interações mediadas pelas redes sociais e pelo digital, mas elas certamente expandem o potencial do ridículo. A falta de autenticidade (tentemos ou não fugir dela) que carregamos é reproduzida em volume de sobrecarga simbólica, como se vivêssemos rodeados de outdoors que reproduzem nossas vidas mais ou menos ordinárias para espectadores tão desatentos e ansiosos como nós mesmos e fôssemos sufocados por esses espelhos que, talvez, só queiram se conectar com aquilo que não compreendem; mas perdemos a capacidade de viver com o mistério. 


O micro


Precisamos das pessoas e há algo de permanentemente ridículo e angustiante nessa necessidade. Mas há também a afinidade sublime ao que parece essencial e que se constrói entre poucos por vez e não aos milhões. Minha defesa pessoal envolve, assim, o retorno ao micro, um contramovimento romântico e retrógrado em direção aos pequenos jantares, aos cafés, as festas íntimas em que conseguimos nos comunicar tranquilamente sem virar por demais o pescoço. 


Pois o micro tende a se regular dentro de buscas que, quando não plenamente autênticas, são guiadas pela possibilidade do espontâneo, da compreensão, da aceitação; também se construindo em ambientes com menos filtros de interferência para a alteridade –  isso explica, por exemplo, porque uma conversa entre duas ou quatro pessoas que se conhecem parece mais autêntica e vai se diluindo à medida que novos entes ampliam aquele círculo.


E quanto ao digital, evitá-lo do ponto de vista das relações pode ser, em tese, uma escolha. Pessoalmente e ao menos hoje – quando concluo esse artigo com muito menos fúria do que quando o iniciei há um ano – prefiro encará-lo com o estoicismo de quem caminha em uma grande festa caótica ou se perde em terrenos desconhecidos. Aceito dele algumas doses enquanto tento compreendê-lo e tento absorver algo de nossa paradoxal condição contemporânea. 


Vez por outra, quando se busca, é preciso perder-se, inclusive em clichês, nas festas selvagens, no ridículo estranhamento. 

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