Kieran, I love you, but you’re bringing me down
- João Barros

- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias

Kieran Culkin e Jesse Eisenberg, Los Angeles Times, 2024
Em A Real Pain, as carreiras de Kieran Culkin e Jesse Eisenberg se encontram para entregar um dos melhores filmes de um bom ano para o cinema
Kieran, I love you, but you’re bringing me down ou
Duas ou três coisas sobre Kieran Culkin e Jesse Eisenberg
Parte I
Talvez todos nós tenhamos uma proto-tragédia popular para chamar de nossa; vidas devassadas, escrutinadas até o sumo pela fogueira das vaidades do sensacionalismo midiático que vai além das páginas de fofoca e atravessa a arte comercial, a publicidade, o jornalismo medianamente letrado, as biografias do instante escritas por ghostwriters com financiamentos infinitos a pagar em instituições bancárias, até que, por alguma dessas vias, essas vidas alcançam nosso imaginário e as figuras de seus personagens transformam-se em mitos até que virem, por fim, palavra, significantes de algo que não compreendemos e que desejamos. Ou talvez não tenha sido a mídia, em sua dupla face eterna de Geni e Lady Macbeth, vai saber. Talvez haja mesmo algo de uma sedução inata irresistível, medusiana, na princesa triste que se elevou da plebe, no cantor perdido em uma terra do nunca, na baterista genial maior e mais frágil que a vida, em todas essas figuras cujo grande dilema existencial parece ser o de como existir enquanto e para além de um significante-mito.
Parte II
Bem, a minha proto-tragédia pop foi a da família Culkin. Por anos, acompanhei – a partir do fascínio nascido com a série incrível de blockbusters estrelados Macaulay Culkin entre 1990 e 1994 – as histórias sobre aquela família bela, milionária e despedaçada, cuja criança brilhante foi sugada por um pai abusivo que repetiu, com os filhos, o ciclo de perversão que o tornou um pai perverso.
Sabiamente, Macaulay, meu primeiro ídolo, meu significante-mito que sabe lá deus as tantas formas que influenciou os rumos de minha vida, afora meia dúzia de participações esporádicas em trabalhos de amigos, virtualmente se aposentou aos 14 anos, sobreviveu a imagem insuportável de si mesmo e parece ter consigo interromper, a seu modo, o movimento de dor que, nascida da dor, pode gerar carrascos e cadafalsos.
Parte II
Com o peso maior da proto-tragédia familiar nos ombros do irmão mais velho, restou a Kieran Culkin tornar-se um dos atores mais talentosos de sua geração, um talento que ganhou visibilidade evidente nos anos de Succession (2018-2023), mas que já se mostrava soberbo, único e cativante desde os tempos de The Dangerous Lives of Altar Boys (Meninos de Deus, 2002) e do memorável Igby Goes Down (A Estranha Família de Igby, 2002).
São densos, cínicos, charmosos e trágicos, os grandes personagens de Kieran Culkin. Um cinismo por Culkin superado na sua persona pública pela rota de uma rara ironia que, em seu lastro humanista, não se perde em bestialidade ou enquanto recurso pobre de estilo.
Parte III
Jesse Eisenberg não tem o charme irresistível e que, em alguma medida, todos nós queremos carregar, de Kieran Culkin. Em sua consistente carreira na qual segue como coadjuvante e estrela de grandes e pequenas produções que, em sua maioria são ou ao menos carregam algum frescor de independência, Eisenberg deu voz a jovens e jovens adultos neuróticos, introspectivos, inseguros, obsessivos, aflitos, apaixonados, cruéis, competitivos e intelectualizados, num percurso que, em proporções devidas, tem paralelos com o de Woody Allen, claramente uma de suas referências artísticas e de quem protagonizou o simpático Café Society, 2016, além de compor os pequenos dramas de To Rome with Love (Para Roma, com Amor, 2012).
Eisenberg, no entanto, caminha para uma abordagem mais sutil de nossas neuroses. Eisenberg não é um existencialista trágico. Eisenberg é um humanista.
Parte IV
E, se não tem o mesmo charme, além de dar voz cênica a seus personagens, Jesse Eisenberg pode se tornar uma das vozes mais interessantes de sua geração a partir dos trabalhos que começa a dirigir com elegância, simplicidade e abraçando as referências ricas que o formaram enquanto o grande ator e artista que é. Referências que vão do minucioso dissecar baumbachiano dos dramas da classe média esclarecida de Nova York ao próprio proto-existencialismo de Woody Allen; das comédias estilo Mottola-McKay-Apatow que renovaram o humor comercial nos Estados Unidos com camadas e perspicácia, ao saber trafegar de Eisenberg por grandes produções de Hollywood sem ser engolido por uma máquina que mói tanto pobres diabos quanto mitos.
Parte V
“I would give anything to know what that feels like, man. To know what it feels like to have charm. To light up a room when I walk in.” (A Real Pain, Jesse Eisenberg, 2024)
Em A Real Pain (A Verdadeira Dor, 2024), o primeiro grande trabalho do Jesse Eisenberg autor, essas duas carreiras, quem tem também lá seus diálogos em termos de filmografia, se encontram para entregar um dos melhores filmes de um bom ano para o cinema. O papel de Benji, moldado para explorar o virtuosismo cênico de Kieran Culkin em todas as suas camadas, traz, do ponto de vista narrativo, um mote que é ao mesmo tempo, simples e fundante para os corações angustiados como os de Benji: de que forma sustentar o brilho da vida quando o limite entre a beleza e o lugar comum é tão tênue?
Em sua busca por uma espécie de autenticidade da condição humana, Benji tem algo da própria persona pública de Culkin: um charme irresistível que, tanto na vida quanto no filme, poderia ser simplesmente adornado pela tragédia comum dos significantes-mito, mas que se agarra ao humanismo para suportar a condição humana, a verdadeira dor e a verdadeira beleza. Tudo isso enquanto acendem as luzes de todas as salas do mundo.


