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O whiskey imaginário ou A Bossa Nova e seu tempo



john coltrane

Vinicius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto e Os Cariocas, 1962


A Bossa Nova foi o maior acerto da juventude


Rio de Janeiro. Anos 50. Bossa Nova. O Brasil fervilhava. Se você caminhasse um pouco pelo centro carioca podia entrar em um bar como a Casa Villarino e dar de cara com os jornalistas Antônio Maria – junto de sua amiga de copo e de alma Dolores Duran –, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) ou o poeta Paulo Mendes Campos. Todos enchendo a cara de whiskey, assim como Tom Jobim e Vinícius de Moraes.


Como se sabe, foi em uma das mesas da Casa Villarino que Tom e Vinícius tiveram a ideia da parceria que culminou em Orfeu da Conceição, uma das primeiras peças do teatro brasileiro com o elenco todo composto de atores negros. Santa Casa Villarino. Santo whiskey. Claro que antes de aceitar o trabalho de dar forma à lírica de Vinícius, Tom perguntou, assim timidamente, se iria rolar um dinheiro naquilo ali. Gênios também precisam pagar o aluguel, ainda mais gênios cariocas.


São Paulo. Talvez, em uma disputa cultural de queda de braço, a capital paulista perdesse por algumas boas palmas para o Rio de Janeiro. Mas, levando em conta que o Rio ainda era a capital nacional, mantinha as duas maiores estações de rádio do Brasil (Tupi e Nacional), grandes jornais (O Globo, Diário Carioca, Última Hora) colocar qualquer cidade nesse tipo de combate com o lugar mais belo do mundo soa como uma covardia. 


De todo modo, São Paulo não fazia feio. Os irmãos Campos e Décio Pignatari tocavam o diabo e as pedras do verbo-imagem ditando os rumos da poesia concreta. Augusto, aliás, foi um dos mais sofisticados defensores da Bossa, ressaltando os aspectos do movimento que engrandeciam a moderna música popular brasileira, em tempos nos quais seu cosmopolitismo era achincalhado por intelectuais estreitos e cativantes como Tinhorão. 


Sim, se o Rio de Janeiro era a capital esteta, São Paulo não se resumia a capital econômica que já era. Também tinha seus jornalões. Tinha Johnny Alf, Zimbo Trio e Dick Farney fazendo a alegria da boemia paulistana no extinto Baiúca da Praça Roosevelt enquanto de seus prédios chovia dinheiro e de suas esquinas o cheiro do café afogava narinas.   


Eram tempos musicais. Eram os tempos bossanovistas. E o que caracterizou esses tempos e esses músicos que expandiram os limites geográficos da música brasileiro enquanto falavam de felicidade, amor, patos e cantores desafinados?


Para Nelson Motta, tudo girava em torno de situações comuns a jovens da classe média carioca cansados do ar pomposo dos boleros e dos sambas-canções:


“Eles se apresentavam de uma maneira mais informal e intimista, as músicas pareciam mais leves e melodiosas e as letras falavam de situações e pessoas parecidas com a vida que se levava nos apartamentos, nas praias e nas ruas de Copacabana (...) A Bossa Nova era a trilha sonora que nos faltava, que nos diferenciava dos “quadrados” e dos antigos, dos românticos e melodramáticos, dos grandiloquentes e dos primitivos, dos nacionalistas e regionalistas, dos americanos. Tínhamos uma música que imaginávamos só para nós”, disse Motta.


Além desse contexto, que fomentou toda a base lírica primeira da Bossa Nova a partir das letras de Ronaldo Bôscoli, Carlinhos Lyra, Vinicius, Tom e Newton Mendonça, houve a batida fundamental, o instante maior de revelação e ruptura na música brasileira do século vinte no violão de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira.


João Gilberto, o homem singular que, ao mesmo tempo em que ofereceu a ponte integradora para aquela lírica, para os círculos clássicos do piano de Jobim, para as influências do jazz norte-americano; já nasceu contradizendo o mesmo movimento ao jamais abrir mão de suas influências vindas do próprio bolero e de sambistas da velha guarda como Orlando Silva e Lamartine Babo. 


A fama demorou para João Gilberto, que tocava desde menino, mas quando veio, veio de uma vez. Foi saudado por Miles Davis e outros de seus pares, por pesquisadores como Zuza Homem de Mello que disse que, "em João Gilberto, o violão é metade de um conjunto sonoro completado pela voz, formando um bloco, uma entidade unívoca de voz e violão, e não de voz com violão. Quando a sonorização está perfeitamente ajustada, ele consegue manter a ilusão de que uma sala com 3 mil pessoas é tão pequena que o cantor parece estar à frente de cada um. Nessas condições, um espetáculo de João Gilberto é uma inesquecível experiência de integração entre o artista e a plateia, hipnotizada pela magia de seu som"; e até por inimigos: 


"João Gilberto é um bom malandro. Ele inventou uma coisa, inegavelmente. Aquela batida de violão, o aproveitamento dos contratempos (...) em vez de ser uma batida certinha, ele vai e volta (...) O mérito dele é inegável", assumiu Tinhorão.


Me pergunto, já em encerramento, o que, além de João, de Tom, Vinicius, da lírica dos apartamentos cariocas, do movimento que cruzou a ponte aérea Rio-São Paulo e, gradativamente, as pontes aéreas do mundo, o que mais define a Bossa Nova?


Para mim, a Bossa Nova foi um movimento de juventude e o que a resume é o fato de ter sido o maior acerto possível da juventude e de uma juventude que, falando para a juventude, introduziu gerações ao samba e a música brasileira. Foi assim comigo ao menos. 


Volto a Casa Villarino da memória que não vivi e que vive me tragando. Se estivesse lá, nos anos 50, penso que iria me sentar na mesa dos jornalistas. Mas já é noite no Butantã. Bebo o último gole do whiskey imaginário.


 
 

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