A cor da carta estrangeira
- João Barros

- 19 de abr.
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de abr.

Jackson Pollock, Autumn Rhythm, 1950
Ou sobre a poesia
Talvez alguém ainda se pergunte sobre o que é a poesia. É uma questão que nunca me atravessou em especial e, na juventude, a achava digna de um certo academicismo pobre de ideias. A poesia, pensava eu, se sente ou não e, em termos de composição, se intui. A base desse raciocínio permanece, mas há camadas filosóficas nessa pergunta que, se bem conduzidas, podem nos levar a pistas acerca do que um poema pode nos oferecer enquanto experiência estética e talvez até daquilo que nos faz sentir que um poema é, afinal, um poema; camadas que, em minha presunção ignorante da juventude, eu ignorava.
Ainda que me incomode o que parece-me um excesso de logicismo e de esquematizações que, a meu ver, acabam por desidratar as possibilidades do acaso na construção da poesia, Jakobson tem o mérito, com sua função poética, de reconhecer a ação estética que nasce a partir do próprio texto, do jogo de significantes que, mais do que em qualquer outra expressão literária, se volta para si mesmo.
Fazendo um fio pouco convencional, me segue muito pertinente a definição de Bukowski –até hoje, a que me parece mais precisa – sobre o que diabos é ou faz uma poesia ser uma poesia:
"Não estou querendo dizer que a poesia deveria ser um palhaço malucão e irresponsável atirando palavras ao vazio. Mas a própria sensação de um bom poema traz em si a sua razão de ser. [...] essencialmente, a arte é sua própria desculpa, e ou é arte ou é outra coisa. Ou é um poema ou é um pedaço de queijo."
(Charles Bukowski, On Writing, em tradução de Rodrigo Breunig para a L&PM Editores, 2016)
Imagismo, confissão, carta roubada
A sensação de um bom poema. Talvez o melhor paralelo da poesia e da sensação que ela pode ou não carregar e transmitir esteja na pintura, o que me leva ao imagismo de Pound e sua obsessão em apresentar quadros que revelem algo do em si. Contemplar o sublime de uma pintura e de um poema é, em alguma medida, intuir a coisa diretamente (Deus? O real? O objeto?), numa espécie de misticismo bergsoniano.

Mágoa na escadaria adornada
Os degraus adornados já estão brancos de orvalho,
É tão tarde que o orvalho deixa molhadas as minhas meias rendadas,
Eu abro a cortina de cristal
E fico olhando a lua através do claro outono.
(Ezra Pound, The jewel stair’s grievance, em tradução de André Caramuru Aubert para a Revista Rascunho)
Mas, além de uma imagem, um poema é também uma confissão, seja ela voluntária ou sublimada, como é toda palavra expressa, inscrita, posta em ato. Poesia confessional, esse conceito que, vulgarizado, tornou-se munição, quase que uma denúncia contra toda poesia que tenta expressar o si mesmo do sujeito imerso em toda a carga da linguagem que nos circunda.
Para além de tons machistas – posto que, em grande medida, o ataque a poesia confessional foi direcionada a uma tradição literária norte-americana que tem em mulheres seus maiores expoentes – é uma crítica burra, pois, afinal de contas, não estamos sempre tentando, até mesmo quando não estamos, expressar esse sujeito moribundo e cheio de dentes?

Tulipas
Tulipas são excitáveis demais, é inverno aqui.
Vê como tudo está branco, tão silencioso, coberto de neve.
Aprendo a paz, deitada sozinha em silêncio
Enquanto a luz se espalha nessas paredes brancas, nesta cama, nestas mãos.
Não sou ninguém; não tenho nada a ver com as explosões.
Dei meu nome e minhas roupas às enfermeiras
Minha história ao anestesista e meu corpo aos cirurgiões.
Apoiaram minha cabeça entre o travesseiro e a dobra do lençol
Como um olho entre duas pálpebras brancas que ficassem abertas.
Pupila tola, tudo ela tem que engolir.
As enfermeiras não se cansam de passar, não me incomodam,
Passam como gaivotas no interior, em seus chapéus brancos,
Fazendo coisas com as mãos, uma igual à outra,
Por isso é impossível dizer quantas são.
Fazem de meu corpo um seixo, que elas cuidam como a água
Cuida dos seixos por onde corre, alisando-os com carinho.
Trazem-me o torpor em suas agulhas brilhantes, trazem-me o sono.
Perdida de mim, estou cansada da bagagem toda —
Meu estojo de couro noturno, caixa preta de comprimidos,
Meu marido e minha filha sorriem na foto de família;
Seus sorrisos fisgam minha pele, pequenos anzóis sorridentes.
Deixei coisas escaparem, navio de carga com trinta anos
Teimosamente se prendendo a meu nome e endereço.
Eles me lavaram de minhas associações amorosas.
Assustada e nua sobre a cama de rodas com travesseiros de plástico verde,
Assisti meu aparelho de chá, minhas roupas de linho, meus livros
Submergirem e sumirem, e a água cobrir minha cabeça.
Sou freira agora, nunca fui tão pura.
Não queria flores, só me deitar
De mãos pra cima e completamente vazia.
Quanta liberdade, você não faz idéia —
A paz é tão imensa que entorpece,
E não pergunta nada, um crachá, coisinhas de nada.
É do que se aproximam os mortos, enfim; e os imagino
Fechando suas bocas sobre ela, como hóstia de comunhão.
Tulipas são vermelhas demais, me machucam.
Mesmo através do celofane as ouço respirando
De leve, através de suas faixas brancas, como um bebê terrível.
Sua vermelhidão conversa com minha ferida, elas combinam.
São tão sutis: parecem flutuar, embora sinta seus pesos,
Me aborrecendo com suas súbitas cores e línguas,
Uma dúzia de chumbadas vermelhas presas no pescoço.
Antes ninguém me observava, agora sou observada.
As tulipas se viram para mim, e para a janela às minhas costas
Onde, uma vez por dia, a luz lentamente se dilata e lentamente se dilui,
E me vejo, estendida, ridícula, uma silhueta de papel
Entre o olho do sol e os olhos das tulipas,
E não tenho face, eu que tanto quis me apagar.
As tulipas vívidas devoram meu oxigênio.
Antes de chegarem havia sossego no ar,
Indo e vindo, a cada alento, sem alvoroço.
Mas as tulipas o ocuparam por inteiro, como um alarme.
Agora o ar se enrosca e redemoinha ao seu redor como o rio
Ao redor de um motor enferrujado e submerso.
Elas concentram minha atenção, foi divertido
Brincar e descansar sem compromisso.
As paredes também parecem se aquecer.
Tulipas deviam estar atrás das grades, como feras perigosas;
Elas se abrem como a boca de um grande felino africano,
E estou consciente de meu coração: ele se abre e se fecha,
Seu bojo vermelho viceja de total amor por mim.
A água que provo é morna e salgada, como a do mar,
E vem de um país distante como a saúde.
(Sylvia Plath, Tulips, em tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo, presente no livro “Ariel”)
Entretanto, se um poema é uma confissão, ele é uma confissão inconclusa, para sempre a trilha difusa de uma carta roubada, de uma carta estrangeira cuja beleza reside na tentativa vã do desnudamento e que carrega em si uma esperança: fazer ver o mistério, sua cor e, nesta visão compartilhada, permitir a intuição do próprio mistério que é mistério também para quem o enuncia.
E qual a melhor forma de transmitir nossas cartas perdidas neste idioma irreconhecível, neste único meio que é a linguagem? A meu ver, ao modo de O’Hara, que fazia da impossibilidade do diálogo seu ponto de partida para uma conversa de línguas estrangeiras (em seus símbolos, lugares e ordinariedades intraduzíveis) que se tornam irmãs pelo movimento e pelo desejo.

Poema
Café instantâneo com um pouco de creme
azedo, e uma chamada telefônica mais além
que não parece estar ficando nem um pouco mais próxima.
“Ah, papai, eu quero me embebedar por muitos dias”
na poesia de um novo amigo
minha vida se segura precariamente em ver
as mãos dos outros, as deles e as minhas impossibilidades.
Será isso o amor, agora que o primeiro amor
finalmente morreu, lá onde não existiam impossibilidades?
(Frank O’Hara, Poem, em tradução de André Caramuru Aubert para a Revista Rascunho)
Imagem, confissão, carta estrangeira. É por esse ternário que percorre a sensação de que um poema é um poema? Guardo, en souffrance, esta hipótese sobre o mistério poético, sobre esta tentativa de transmissão da ordem simbólica em que estamos aprisionados*.
*A ideia de aprisionamento na ordem simbólica é expressa por Lacan em "O seminário sobre "A carta roubada".


