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Meus adoráveis assassinos

  • Foto do escritor: João Barros
    João Barros
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura


john coltrane

Diane Arbus, Woman at a counter smoking, N.Y.C, 1963


Fumar é, no que me diz respeito, a própria razão de ser adulto", Fran Lebowitz


Comecei a fumar regularmente em março de 2005. Foi a primeira coisa que fiz quando pisei pela primeira vez no Setor II do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFRN para o primeiro dia de aula da licenciatura em filosofia: pedir um cigarro ao Luiz Fernando, um jovem bonito recém-vindo de São Paulo que virou meu amigo em papos iniciados, primeiramente, naqueles corredores cinzentos dos quais guardo memórias de deslumbramento e de tanto desejo transbordante que eu nem sabia o que fazer com aquilo. 


Acho que eram Luckies. Eram, sim, o Luiz fumava Lucky Strike. Fiz muitos amigos fumando.


Migrei rápido para os Camels e com eles fiquei. O maço mais bonito. Um símbolo de elegância transviada, de um sonho em ruínas que eu perseguia e que, à época, parecia tão distante e tão sedutor: Nova York, do it yourself, punks ricos tomando café no Chelsea Hotel e torrando a fortuna de seus pais enquanto eu torrava o dinheiro suado de meus avós nos cafés de Natal, espiritualidade beatnik barata de mentira e de verdade, viagens de trem pela Europa por meio de livros de expatriados, projetos mirabolantes do romance do século com amigos charmosos e arrogantes que eu tentava desesperadamente emular vindo de uma vida em um rincão do Rio Grande do Norte por meia década, fantasias, colapsos, não sustentação, desespero, ódio, amor incontido. Tudo incontido em forma de camelos.


Em vinte e um anos, fiquei apenas quatro períodos sem fumar Camels: 


  • Por uns seis meses, nos idos de 2007, em virtude de um pedido de uma ex-namorada que desejava que eu reduzisse os cigarros. Fumei Frees cinzas com 0,1 grama de nicotina. Acredito nas relações;

  • Por um período indefinido lá por 2015 – não me recordo se três, quatro ou oito meses – devido a uma enxaqueca terrível que, em dado momento, passei a associar a doenças terminais. Depois da consulta com a neurologista em que descobri que tudo estava bem fisiologicamente, atravessei a rua do hospital e comprei um maço de Camels;

  • Por 1 ou 2 anos, numa época em que os meus adoráveis assassinos deixaram de ser vendidos no Brasil. Naquelas estações tristes, exceto por semanas em que fumei Camels trazidos por Paulo de viagens dos Estados Unidos, alternei entre Muratti, Carlton e Shelton;

  • Por dois meses, em 2024, quando iniciei essa saga deprimente de abandonar meus companheiros.        


Estou a duas semanas sem fumar. Um aplicativo de UX engraçadinho, que lembra um cartório ou uma papelaria digital, diz que economizei 108 reais e recuperei 19 horas de vida. Mas ele não fala de tudo que perco.


Capa do lindo disco "Only ugly people smoke", da banda indie sueca Nixon. Seu título é, provavelmente, a maior das falácias da história, mas também talvez seja a única falácia antitabagista espirituosa da história.
Capa do lindo disco "Only ugly people smoke", da banda indie sueca Nixon. Seu título é, provavelmente, a maior das falácias da história, mas também talvez seja a única falácia antitabagista espirituosa da história.

Há poucas coisas no mundo mais elegantes que o cigarro. Ele pode ser brega para as novas gerações ou para mentes bobas como a de Ziraldo (um bobo adorável e de traço lindo, mas um bobo), mas nunca vai ser pra mim. O cigarro, como diz Fran Lebowitz, é a própria vida adulta. É a epítome de um desafio, é a mescla mor da pulsão de vida e da pulsão de morte, é o símbolo libidinal que me acompanha desde os anos em que eu ainda não fumava. 


E ele pode ser condenado por vítimas de tragédias, por ex-fumantes cansativos e bem intencionados como Dráuzio Varella, por religiosos sem camadas, por filisteus estreitos, por militantes contra a indústria do tabaco, por familiares e amigos que se preocupam conosco. À exceção dos filisteus, compreendo, respeito, aceito, mas nunca farei parte do coro. Sei bem o que o cigarro me trouxe em termos de inspiração, de conversas brilhantes e de uma ritualística própria na relação com a vida. Não cuspo no prato, não menosprezo meus símbolos, mesmo que eu jamais ponha um cigarro de novo na boca.


Tento parar de fumar em razão do prazer hoje escasso, de um cansaço incômodo e sobretudo porque não consegui chegar à fórmula mágica de Joan Didion dos 5 cigarros por dia; ou à ética arrogante daqueles que fumam só aos fins de semana e nos dias de festa. Se conseguisse, jamais que eu pararia de fumar. Mas, pelo visto, ce n'est pas possible. Fumo muito. Com cigarros, aparentemente, sou 8 ou 80. 


O Luiz Fernando era punk e se tornou uma das mentes mais brilhantes da nossa geração nas humanidades da UFRN. Faz quase duas décadas que não o vejo. Quando desci do avião, em São Paulo, depois de ter abandonado as possibilidades de uma vida acadêmica em 2008, fazia um frio cortante que perfurava nossas bochechas em Guarulhos. Eu mal esperava a hora de acender um cigarro.


 
 

©2023 por Revista Lenta

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