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Diários de Paraty



john coltrane

Paraty, Acervo pessoal, 2026


É possível suportar tanta beleza?


Acendo um cigarro na sombra de uma árvore frondosa de muitas raízes. Sigo tentando parar de fumar, mas estou de férias. Acabo de chegar e vejo meus companheiros de viagem conversando enquanto sinto as raízes infinitas da árvore que poderiam bem me prender para sempre em Paraty. Eu suportaria tanta beleza? Eu suportaria toda a beleza do Rio de Janeiro para sempre?


Quase arromba a retina de quem vê. Indeed. Toda paisagem do Rio de Janeiro é sublime: seu mar, suas águas, suas montanhas, seu chão, sua arquitetura, sua gente que, mesmo quando em desânimo, sofre de paixões. É o desânimo mais triste do mundo, o desânimo de um carioca, do mesmo modo que um carioca irritante é o ser humano mais irritante do universo, que o carioca sedutor é irresistível, que o carioca agradável é um anjo na terra, que o carioca interessante é o próprio Apolo and so on, nesta terra, por essência, dionisíaca. E, em Paraty, toda a beleza carioca é encapsulada em um quadro feito de tempo. 


Por anos, compartilhei, por companheirismo, do bode paulistano com o Rio de Janeiro e com os cariocas. Por anos, até conhecer o Rio de Janeiro e sua gente e me apaixonar. Entendo a richa: são metrópoles antítese. São Paulo é forma. Rio de Janeiro é explosão. São Paulo é uma linha. Rio de Janeiro, uma curva. São Paulo é concreta. O Rio é impressionista. São Paulo é a não ficção. O Rio de Janeiro é a poesia. São Paulo é a verdade. O Rio é o sonho. São Paulo é a metrópole por excelência. O Rio de Janeiro é a metrópole-não-metrópole. 


Em ambas, nordestinos se deslumbram, prosperam, e conquistam reinos, pois o Nordeste – barroco, contraditório, terra primeira – tudo abarca e tudo é.


Nos últimos tempos, só consigo escrever sobre cachorros. Tenho sofrido pelos esquálidos cães de rua de São Paulo. Alguns são abandonados na praça em frente ao prédio no qual vivo. O que fazer com todo o sofrimento do mundo?, penso. E o que fazer, afinal, com as crianças e os cães dos faróis?, penso. Penso. Penso. 


Em Paraty, os vira-latas são gordos, parecem calmos e caminham em paz entre as ruas de calçamento colonial. Afago todos que posso. Fico também em paz.


É uma cidade amigável com turistas, Paraty. Os preços passam longe de ser abusivos e a melhor refeição que fiz na cidade custou R$ 30,00. Bebe-se bem, come-se bem e, com alguma paciência, estaciona-se de graça nestas ruas em que chega cedo a noite.


Crio rituais em todos os lugares que piso e o de Paraty consiste em ir, todos os dias, na Padaria Esperança. Provo quase todos os doces. Relembro dos que já havia comido. Gosto de tudo, com exceção do tradicional pé-de-moleque cheio de gengibre até o talo. Enquanto o rejeito, penso que há beleza até no que não gosto na cidade.


No Festival Literário, vemos psicanalistas, poetas, humoristas, escritores de contos de horror, jornalistas, intelectuais. Em alguns momentos apenas tentamos. Compro uma edição de Virginia Woolf. Outra de Gertrude Stein. Emociono-me com um pequeno livro de Ana Martins Marques. A sensação, na maior parte do tempo, é de alegria leve, de tranquilidade, algum estímulo criativo, algum cansaço no fim do dia, quase nenhuma agorafobia. Quase nenhuma.


P. escreve na praia. P. sonha com facas. P. sorri para uma poeta angolana. Em Paraty, nos tornamos namorados. 


É bonita a Marina da cidade. Os barcos parecem encapsulados. Em um quadro feito de tempo. O dia era o anterior. No seguinte vamos embora.     

 
 

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