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  • João Barros

Fundante




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Há um mistério que movimenta a queda?


Você não acha um fascínio o fato de que alguém seja genuinamente interessado por contabilidade ou comércio exterior? Que veja beleza em relatórios, nas nomenclaturas comuns do mercosul, em microestatística aplicada aos volumes do imposto de renda do pequeno varejo de Fernandópolis, em pastas multicolores organizadas em subdepartamentos de uma repartição privada envolta na espiral burocrática destinada a ser engolida pela inteligência artificial até que ela mesma se canse do fardo?


Observando de longe, quase é possível enxergar o sublime dos coffee breaks, do enfado engolido por sorrisos lacrimejantes uniformizados nas tendas de expo-shows do Center Norte, nos sentimentos ou, mais propriamente, nas sensações contraditórias que nos atravessam quando assistimos a palestra de um especialista em tecnologias telecomunicacionais semi-ultrapassadas que sua mesmo com o ar-condicionado ligado no talo virado para a sua cara enquanto tenta demonstrar o despojo digno dos dias da renovação carismática para disfarçar seu desconforto com os fundilhos das calças apertadas demais e os 30% de algodão da camisa pólo da TECHSYSTEM ou STARTELECOM ou CONTECH ou COMEX3222 – porque o CEO da empresa ouvia muito a segunda leva das bandas de hardcore melódico que alcançaram sucesso médio no início dos anos 2000 e até tocaram no Faustão – sendo engolidos por todo o poliéster que pinica seu peito também suado; parece melhor do que ficar no escritório, com reuniões que lembram suicídios, mas talvez não seja, ou talvez seja, um suicídio eufórico, um mergulho errado na piscina no momento em que engolimos o cheeseburger mais barato que conseguimos encontrar no food truck de comida meio mexicana meio shopping e nossos olhares se cruzam e cruzam com compaixão, os de outros trabalhadores presos à morte, morte imposta do tempo de ócio – é melhor ou não é?; de quando em quando, alguém parece genuinamente interessado nos rumos da gestão organizacional em 2024, na expansão do mercado de franquias, pelas possibilidades de inovação nas relações comerciais entre Rio das Pedras e Mechanicsburg e, nesses momentos, abre-se uma fenda metafísica no universo, uma estrela parece cair e nós ficamos a um passo da aniquilação e da transcendência.


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Enquanto isso, carros continuam a se mover em avenidas lentas, em algum lugar alguém come cebolas gordurosas em redes de fast food e, para todo o pesar, uma beleza quebrada se atrai pela estupidez – sim, decepcionante, mas não há mensagens por serem decifradas? Não há um mistério que movimenta a queda?


Parece essencial. A matéria, por si só, não basta. Parece inevitável e fundante.


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