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Os tempos políticos

há 11 minutos
4 min de leitura


john coltrane

Luiz Inácio Lula da Silva, Bob Wolfenson, 1979


Um breve manifesto autossociobiográfico em apoio a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva


Em sua conferência quando do recebimento do prêmio Nobel de literatura de 2022, Annie Ernaux, ao relatar a trajetória de sua obra rumo às construções autossociobiográficas que a notabilizaram como uma das maiores escritoras de nosso tempo, descreve um momento anterior à “escrita neutra, objetiva” que busca fazer com que a "violência" surja “dos próprios fatos”. Momento no qual, em contraposição, a violência, a "dilaceração social" e a "rebeldia" estão presentes também no estilo, no texto de uma trânsfuga social que descobre na literatura um lugar de emancipação.


E como não vazar para o estilo anos de opressão? No limite, o lugar confuso da transmutação social pode nos fazer, como brilhantemente elucidou Paulo Freire, almejar assumir o lugar de déspota, quando não há diálogo crítico, quando a educação torna-se um mero instrumento mercadológico. Combinada à difícil memória do desprezo, da humilhação, da dor social, temos um barril de pólvora para a construção de indivíduos e gerações movidos pelo rancor como força motriz política e que tem no opressor um símbolo a ser emulado, canibalizado, vivido. 


Em magnífico ensaio “Os sentidos da humilhação” para a edição de março de 2022 da Serrote, a escritora norte-americana Vivian Gornick associa a força terrível do desprezo a diferentes formas de violência – do nazismo à tortura de guerra. “A pior coisa que a vida pode fazer com os seres humanos é infligir humilhação”, diz Gornick, lembrando passagem de Tchekhov.


Vindo de um núcleo familiar que sempre viveu no estrato limite de uma classe média baixa que nos anos 1990 era simplesmente chamada de pobre e que depois se despedaçou, conheço bem o sentimento que advém do desprezo social. É meu ponto de partida. Um desprezo que, muitas vezes, se retroalimentava na “vergonha da vergonha”, sobretudo porque, olhando para os lados, via famílias de vizinhos que alcançaram alguma mobilidade antes de nós. O sentimento só se intensificou quando mudei-me para o Nordeste com minha mãe e meus irmãos, vi as famílias abastadas de meus tios, tias e primos, convivi com as classes altas do Rio Grande do Norte nos anos tortos da filosofia na UFRN e, por fim, sucumbi a uma falta que não sabia nomear: de estrutura, econômica, psíquica. 


Volto para São Paulo. Rompido com Deus e o mundo. Trabalho alguns anos em centrais de telemarketing, cinemas, supermercados. Entro em uma universidade privada pelo Prouni no momento em que mais nutro rancor: pela elite como um todo, mas sobretudo pela elite progressista que, na forma como eu enxergava a época, nunca me permitiu pertencer e permanecer em seu círculo. Por um breve, mas intenso período de revolta difusa, não suportava ouvir falar de uma esquerda que, na minha visão, não só não compreendia as agruras das classes trabalhadoras, como tinha a audácia de falar por ela do alto de seus apartamentos nos Jardins, na Vila Mariana, nos bairros prósperos paulistanos.


Naqueles anos, tive a sorte de estar em uma instituição que, mesmo moldada para o mercado, tinha excelentes professores, pesquisadores e intelectuais sérios que se dispuseram a dialogar comigo, criticamente, mas com respeito, acolhimento e sem um elitismo que não seria mesmo próprio para a Universidade Paulista, cujo público discente era formado essencialmente pelos filhos da classe média baixa de São Paulo e por uma vastidão de alunos bolsistas como eu. Apesar de desorientado e permeado por equívocos dos anos finais de uma juventude amargurada, aquele foi também um período interessante de investigação. Conversava com professores marxistas, lia de tudo – de intelectuais conservadores ao diletantismo anárquico de Millôr Fernandes – observei grupos políticos se formando, vi o fanatismo crescente de uma direita que, cada vez mais, se distanciava da independência de pensamento de um Paulo Francis ou da capacidade intelectual de um Carlos Lacerda; e finalmente, ao longo de um processo que integrou transfugação social, me reaproximei da esquerda por entender que oferece um espaço crítico muito mais aberto. Talvez essa, aliás, seja uma definição possível para o éthos da esquerda, um corpo crítico em movimento e em construção contínua. Não é só possível ser crítico da esquerda estando na esquerda, como é essencial, para que se possa trabalhar sobre ruídos e falhas e romper bolhas com diálogos, pontes, acolhimento.


Para além de um espaço crítico, com todos os seus problemas e questões a serem desenvolvidas no decurso dos próximos anos de nossa história, o mais importante é que a esquerda, em suas múltiplas acepções, se direciona para as pessoas e não haveria conquista de direitos, transfugação social, Sistema Único de Saúde, Prouni, Bolsa Família e um olhar para as necessidades reais dos trabalhadores sem uma classe política progressista e humanista organizada, sendo, portanto, um pilar indispensável da democracia.


Democracia que está sob risco real. Para a esquerda, para os liberais, para os conservadores. Nesse contexto, em que todo tempo é um tempo político, a Revista Lenta apoia a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Em nome das possibilidades de emancipação criadas e para que possamos avançar enquanto sociedade. Em nome de tudo aquilo que foi conquistado. Em nome de tudo aquilo que podemos perder.   

 
 

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